sábado, 20 de agosto de 2011

Viagem à India - parte 1


Em janeiro de 2010, um mês antes da viagem, escrevi o seguinte:

“O que você pensaria de uma pessoa que vai passar férias no outro lado do mundo, num lugar onde se falam mais de 1.600 dialetos, não se come carne bovina, as comidas são exóticas (leia-se horríveis para muitos paladares), as cores são fortes, as mulheres se escondem, os casais não se beijam em público, as ruas fedem, os tuc-tucs dividem espaço com macados, camelos, elefantes, ratos e andarilhos, os palácios e mausoléus não admitem sapatos, os corpos de mortos são jogados no seu rio sagrado, a água não é potável e qualquer um pode ser preso ou morto se tocar a cabeça do outro? Se você pensar ‘essa pessoa é louca’, talvez tenha razão, eu também me acho um pouco. (...) Com tanto choque cultural, não sei até que ponto a Luana que voltar será a mesma de agora.”

Já faz mais de 18 meses que voltei e ainda é difícil absorver tudo que aconteceu naqueles 6 dias. Nenhuma foto conseguiu registrar os momentos fantásticos que eu vivi lá. Por isso, eu sabia que precisava mais cedo ou mais tarde fazer esse registro, que não segue bem uma ordem cronológica, mas principalmente a ordem dos sentimentos e da memória. Namaste!

Que programa de índio!
O que eu mais vi nos meses anteriores à viagem foi a cara de exclamação das pessoas. “Por que você não vai pra Paris? NY? Amsterdã? Tá maluca, o que vai fazer na India? Credo, lá é cheio de ratos nas ruas, você vai pegar doença!” e alguns outros comentários que prefiro não comentar.

A ideia não foi minha, foi do Alex. Ele sempre teve fascínio pela India. Eu, apenas curiosidade. Com a decisão tomada e pacote comprado, começou a parte tensa da história. A começar pela mulher da agência de viagens, que não demonstrou nenhuma segurança em nos recomendar este destino. Detalhe: foi a primeira vez que ela vendeu um pacote para a India. Que medo.

Tomei todas as vacinas, não apenas porque é obrigatório, mas porque descobri que realmente existem altas chances de contrair doenças por lá. Pesquisei muito sobre a experiência de outros viajantes, e percebi que existem basicamente dois tipos: os que voltam fascinados e os que voltam traumatizados.

As primeiras horas
Se a viagem se resumisse aqui, eu faria parte do segundo grupo - o dos traumatizados. Depois de 20 e tantas horas de voo, com uma escala em Paris, desembarcamos no “aeroporto” de Delhi por volta de 3h da madrugada. O que eu mais temia aconteceu de cara: não conseguimos encontrar o carinha da agência de viagens que nos receberia.

Quando chegamos na área de desembarque, tinham algumas centenas (é isso mesmo, centenas!) de homens com aquelas plaquinhas esperando os turistas. Desespero instantâneo, misturado ao sono e um certo tormento mental pelas mais de 24 horas de viagem (contando todo o processo nos aeroportos, atrasos e por aí vai). Respirei fundo e andamos calmamente em frente a eles, lendo cada plaquinha, para tentar achar algum indício do nosso nome. Nada.

Tentamos ser práticos e procuramos as cabines de táxi pré-pago. Tudo certo. Chegando ao local onde se encontravam os “táxis”, levamos nosso segundo susto: o táxi era uma mistura de carroça com riquixá - também conhecido como tuc-tuc, o tradicional veículo indiano que mais parece carrinho de pipoca. O motorista nem olhou pra nossa cara, foi pegando as malas e jogou na parte de trás da “carroça”. 

Demorou quase 1 hora para chegarmos ao hotel, pois o motorista não sabia onde ficava (muito menos eu). No caminho, vimos uma Delhi adormecida, completamente escura, vazia e cinza. Parecia uma cidade abandonada, com prédios velhos e longos lotes vagos com muros tortos e quebrados, como num estado de pós-guerra. Chegamos ao hotel atordoados, para não dizer em pânico. Abracei o Alex e caí em prantos.

Quando comecei a me acalmar, o telefone do quarto tocou. Merda, eu sabia que meu inglês ridículo com certeza me traria problemas. Esse foi só um ponto da nossa louca decisão: ir para a India sem saber falar inglês, muito menos hindi. Voltando ao telefone, este foi meu primeiro contato com o "jeito de ser" bem particular do indiano. Era o tal cara da agência de viagens que deveria estar com a plaquinha nos esperando no aeroporto. Ele falava rápido e baratinado em espanhol, e parecia estar me xingando. A parte que eu entendi era mais ou menos assim:

- “Eu estou há mais de 5 horas esperando vocês aqui no aeroporto e vocês não apareceram, me deixaram aqui esperando, vocês pegaram táxi e não podia pegar táxi, meu chefe vai me xingar, meu chefe não pode saber, não fala pra ninguém, tenho que ir aí entregar seu dinheiro que você gastou com o táxi...” E ficou repetindo isso durante uns 15min na minha orelha.

Eu entendia algumas partes, mas não conseguia responder em espanhol, só em inglês. Ele, nitidamente irritado, disse:

- “Você quer falar em inglês ou espanhol?”
Atordoada, eu resmunguei num dialeto que inventei na hora, mais ou menos assim:
- “Can you hablar en espanhol and me responder in English?”

Poderia ter sido engraçado, mas não foi. Desliguei o telefone com vontade de voltar pra casa na mesma hora. O Alex, coitado, tentou me acalmar e disse que eu me saí muito bem na primeira tentativa de comunicação. Já eram quase 5h da manhã, e enfim conseguimos dormir algumas poucas horas, porque lá pelas 9h o motorista nos esperaria para o início do passeio.

Nada como um começo trágico para quebrar todas as nossas expectativas. Algum tempo depois, acordamos completamente desarmados, abertos para viver a melhor ou a pior experiência das nossas vidas.

2 comentários:

Cyano disse...

Mas e ai? Conta o desfecho destsa viajem para nós, estamos curiosos por saber, obrigado!

Luana Carvalho disse...

Oi cyano, prometo que nao vou demorar um ano e meio pra escrever o restante da historia.rs estou organizando o pensamento e em breve tem mais um capitulo,ok! Bjs