Se a India fosse um movimento artístico, para mim ela seria a terra do surrealismo. Aos poucos explicarei por quê.
O hotel em Delhi era imponente e luxuoso. Na porta, um homem-sultão de turbante na cabeça recepcionava todos os hóspedes, sempre muito cordial. A partir do momento em que saí do hotel e vi a primeira luz do dia, parece que entrei em um sonho estranho, tenso e lúdico, em algum lugar bem longe da realidade.
Como toda metrópole e capital, Delhi é uma cidade complexa e cheia de contrastes. Engana-se quem pensa quem são duas: a Velha Delhi, construída pelo império mogul, e a Nova Delhi, nascida em berço britânico. A olho nu, Delhi são muitas, e dá medo. As ruas são disputadas por homens semi-idênticos que andam de mãos dadas, mulheres maltratadas pela ausência de beleza ou de cuidado, camelos, porcos, vacas, tuc-tucs, carros 4x4, carroças, imensos lotes vagos lotados de lixo, prédios suntuosos, casebres, palácios e mesquitas. E mais lixo, muito lixo.
Apesar de todas as contradições, é nítida a existência de uma forte identidade formada pelas tradições, pela fé e pela cultura. Por esse olhar, eu poderia dizer que tudo lá parece muito igual.
E as famosas cores da India? De início não encontrei. A India não é tão colorida quanto dizem. Sim, os sáris são bem coloridos, mas não no corpo das indianas, onde as cores se escondem sob a sujeira. No geral, a pobreza e a poeira tornam a cidade cinza. Quem conhece lugares como Belford Roxo ou Araçuaí, no norte de Minas, tem uma vaga ideia do que seja isso.
Para encontrar as cores da India, foi preciso olhar mais de perto, observar com cautela. Logo eu comecei a vê-las: nos caminhões enfeitados e cheios de bugigangas na estrada, nas carruagens carregadas por elefantes, nos tecidos e tapetes, nas roupas dos camelos e cavalos, nos detalhes arquitetônicos impressionantes dos templos e castelos. E principalmente no jeito tímido e no sorriso contagiante do Saptal.
Voltando à realidade...
Saptal nos pegou no hotel e apresentou-se. Seria nosso motorista e guia de viagem. Foi um alívio ver que ele era simpático, e não estressado como o cara que me ligou do aeroporto de madrugada. Seu cheiro era insuportável. Nos primeiros 5 minutos no carro, tive que fazer um forte exercício de concentração para tentar anular meu olfato. Só consegui me acostumar com o cheiro dele à medida que meus outros sentidos conseguiram se sobressair àquele.
Eu tinha lido em algum lugar que é tarefa quase impossível uma estrangeira andar pelas ruas da India sozinho, sem a companhia de um guia local. Na minha cabeça isso era um grande exagero, mas a primeira experiência foi o suficiente para entender que não é.
Nossa primeira visita foi à Jami Masjid, maior mesquita da India, bem no Centro de Delhi. Saptal deixou o carro no estacionamento e tivemos que andar alguns metros até a porta da mesquita. Naquele pequeno trajeto, me senti uma celebridade instantânea, ou quem sabe um quadro de Mona Lisa no Louvre, ou até mesmo um pote de mel perto de várias abelhas enlouquecidas.
Cochichei:
- Amor, por que estão olhando tanto pra mim?
Mal sabia que meus minutos de fama só tinham começado. No geral, os indianos são muito parecidos: pequeninos, pele morena, olhos castanhos, corpo e roupa sempre sujos. O problema é que a minha pele branco-transparente contrastava demais com essa aparência local, transformando-me em um imã que atraía todos os olhares – de homens, mulheres e até crianças. Por onde eu passava, todos, sem exceção, me comiam com os olhos, ignorando totalmente a presença de um homem de 1,90m ao meu lado.
As mulheres me olhavam com expressão de curiosidade, talvez mais pelas roupas (e por usar calça ao invés de saia). As crianças me davam “tchauzinho”, gritavam “hi!” e algumas pediam para pegar na minha mão. Os homens faziam uma cara engraçadinha de tarados contidos, o que desmitificou completamente a ideia de que eles são muito respeitosos. Só sei que eu me senti muito estranha, ora uma E.T, ora uma deusa encarnada. Surreal. Aliás, ir para a India é uma boa dica para qualquer mulher branca com baixa auto-estima.
Caminhamos até a mesquita e Saptal nos pediu para andar rápido, senão as pessoas começariam a se aglomerar ao nosso redor. Eu sabia que não era indicado pegar na mão do Alex em público, mas, pela necessidade de proteção, infringi a regra logo de cara. Aí que as pessoas nos fulminaram ainda mais com o olhar. Antes de entrar na mesquita, tivemos que passar nos guardadores de sapatos, já que em grande parte dos templos sagrados da India só se entra descalço. Nesses locais as mulheres são especialmente “protegidas” e separadas dos homens na entrada. Tive que passar por uma fila só de mulheres e entrar coberta por um pano até os pés. Foi o primeiro contato com a forte espiritualidade dos indianos.
Momento nostalgia: lembrei-me das missas em Bom Despacho, das comunhões com o padre, de todas as tradições católicas que acompanharam a minha infância, mas nunca me fizeram crer em qualquer religião. Eu, ovelha negra que fugiu do rebanho, fui parar logo na India - um lugar onde nem ateu consegue fugir de alguma forma de fé.
Por falar em fé, a viagem mudou completamente a minha noção do significado dessa palavra.
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